Borboleta

 

 

 

Hoje consegui retornar, há muitos dias saí desse mundo denominado real. Cansei-me dos homens, da rotina! É assim que meu diploma da ignorância sai – aos berros quando lembro de abrir aquela gaveta lá do canto entregue às traças, ao pó… Estou aqui em minha janela enamorando a jabuticabeira, quanto tempo não a observo, a última vez que nos encontramos ela era uma adolescente, viçosa, repleta de folhinhas verdes, está tão bem definida brincando de ser mulher. E agora vejo a minha frente uma árvore majestosa não tão cheia de si como antes, mas forte, rígida, seus braços tão firmes parecem querer alcançar o céu, impetuosa e confiante aguarda a chuva que não chega, apenas o frio e o sol do mês seco de julho.

As raízes despontam sob o solo fofo e empoeirado… As formigas passeiam no corpo bem delineado buscando alimento, ou quem sabe um açúcar,  penso que nos minúsculos pontinhos que aparecem na jabuticabeira há um néctar saboroso, as danadinhas não retiram e nem tão pouco cortam as folhas, apenas passeiam , sobem e descem com suas patinhas ligeiras e nem percebem a presença dos pardais fazendo algazarra na terra fininha , que cena linda!

Já está caindo a tarde, os passarinhos se despedem da jabuticabeira , voam em direção às mangueiras e iniciam uma cantoria frenética criando assim, uma orquestra capaz de enfeitiçar o sol ,  que adormece por estar cansado de brilhar. A noite chega faceira, e as formigas continuam a fazer da jabuticabeira, um escorregador do parque natureza por um tiquinho de minuto quis fechar a janela, mas fiquei ali esperando o não sei o quê… Tranquei-me ali, num braço fininho da majestosa jabuticabeira, me aprisionei por vontade, me encolhi toda temendo cair, na minha cabeça surgiam idéias muito loucas. Perguntava-me a todo instante o motivo de estar ali me sentindo tão bem, o galho acariciava meu corpo cansado da lida, o vento frio nos balançava pra lá e não pra cá, pensei em retornar a janela, mas estava envolvida demais para voltar atrás, aquele colo engalhado e gostoso me fez  cair num sono profundo, assim como acontece com  algumas princesas dos contos de fadas.

Por um bom tempo dormi…  Sonhei mundos exóticos, fantásticos, fui a lugares secretos, tão secretos que nem a lembrança é capaz de guardar para um dia contar a alguém, descobri terras jamais exploradas, intocáveis, não tive a ousadia de fincar lá minha bandeira, se me permitisse realizar tamanha façanha tudo perderia o encanto.  No decorrer do sonho me embriagava ingerindo um líquido verde adocicado oferecido e preparado pelas mãos da natureza,  era meu único alimento. A cada gota ingerida sentia a sensação que algo acontecia dentro de todo o meu ser, é inexplicável, ao mesmo tempo que me sentia humana também me sentia árvore, flor, jabuticaba, semente, solo, chuva, sol, noite e muitas outras espécies de vida.

Não sei exatamente por quanto tempo fiquei ali na jabuticabeira, contudo o tempo necessário para sentir minhas asas, contemplá-las mesmo que ainda desajeitadas, levantar vôo e sair por aí   a procura do significado da vida, do prazer, do desejar satisfeito que é fazer o que ama… Não quero mais voltar a janela estou na jabuticabeira, é bom ser liberdade…  Ouça:

“ Aqui Sempre posso  adormecer , acordar e sonhar ,uma   vez por outra quem sabe até  borboletear histórias em meio as jabuticabas, e sempre que eu quiser vou  rasgar o infinito abrindo  as nesgas do céu…”

 

                                   Jussara Pereira de Almeida

Sobre André Luiz Dametto

Apaixonado por aprender e criar. Às vezes professor e consultor, outras artista ou flâneur, mas livre, sempre..
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