Equilíbrio e identidade, pintados no meu azulejo

              

Trabalho, diversão, quem me conhece sabe que não gosto de dicotomias, e faço de tudo para tornar minha jornada profissional tão gostosa que, de repente, eu até me pego trabalhando… Apesar de já ser a última turma de um ciclo de oito turmas sobre a Lógica da Comunicação, esta teve um gostinho especial. É sempre uma dádiva realizar este casamento do meu diploma de engenharia com meu lado comunicador, psicólogo e diversos outros que nem eu conheço ainda. Mas desta vez teve direito a lua de mel e tudo, e não tinha como acontecer em lugar melhor: São Luis.

Em épocas de dólar alto e um ufanismo crescente, equilibrar o trabalho com o lazer nestas terras foi uma grata surpresa. A cidade eh uma gracinha, vc sai do aeroporto e sente uma brisa morna que faz você ate esquecer da tortura que é viajar de Gol mais de 2km e com escala. As pessoas são muito cordiais, queridas, atenciosas, gostam de dar informação e com aquele olhar carinhoso do qual tanto senti falta nos EUA. Conversando com os nativos eles explicam que esta cordialidade está muito ligada à história da cidade, sempre aberta a influências externas. Primeiramente colonizada por franceses em 1612, depois foi invadida pelos holandeses até que foi tomada pelos portugueses, os quais deram a cara da cidade. Caramba, o que está cidade tinha que todo mundo queria tanto?

Bem, vou explicar: um clima delicioso, onde praias, frutas tropicais e onde se plantando tudo dá… Em épocas de pacto colonial isso aqui devia se assimilar ao contemporâneo Vale do Silício. Tanta diversidade de natureza e cultura deixaram a cidade cheia de sabores. Experimente a pescada com o famoso arroz de cuxá, verdinho e com camarão seco. Para molhar o bico, água de coco ou guaraná Jesus, um refrigerante safado cor de rosa que os locais amam. Tudo regado a muito reggae, som idolatrado por gente de todas as idades. São Luis é daqueles passeios que faz você viajar no tempo e no espaço. Comigo a viagem foi uma coisa ora Brasil Colônia ora Europa Mediterrânea. Vemos em São Luis o melhor e o pior da história do Brasil. Uma arquitetura encantadora de prédios baixinhos, cores pastel, eiras e beiras fantásticas, janelas de todos os formatos, você se sente em Roma fácil. Muitas paredes revestidas de azulejos belíssimos, muitos trazidos de Portugal, explicam o apelido da cidade: cidade dos azulejos. O objetivo era refletir a luz do sol e deixar as casas mais geladinhas, afinal, estamos logo abaixo da linha do Equador, darling. Aliás, isso faz de Alcântara, cidade vizinha, base de lançamento de foguetes e tudo. Tá!

Por outro lado, também vemos aquele descuido com nossa História que me fez questionar pra que serve o título de Patrimônio UNESCO da Humanidade. Cadê a fiscalização, minha gente? Nesta linha crítica, soube que os piores indicadores de Educação no Brasil estão justamente no Maranhão. Por isso digo que aqui vemos também o pior do Brasil Colônia. Como há poucas empresas na região, as pessoas aqui geralmente dependem do Estado, o que perpetua a divisão Casa Grande – Senzala. Há muita gente pobre, geralmente rindo, se divertindo, mas pobre. Por outro lado, alguma gente rica, enfurnadas em castelos sitiados, carros imensos, mas com uma cara de quem não está se divertindo tanto, paradoxal… No Centro Antigo impera um ar de informalidade e tranqüilidade, às vezes interrompido por brigas e gritinhos que terminavam tão logo quanto começavam. Coincidentemente sempre eram hippies mais pra lá do que pra cá, discutindo sobre algo que depois nem eles mesmos pareciam mais se lembrar direito.

Isso tudo cria na cidade um charme surreal de luxo e lixo, então focamos no que dá certo e vamos curtir a cultura maravilhosa que esta cidade me revelou. Na turma to treinamento que ministrei conheci a Lusa, uma funcionária da empresa cliente totalmente “out of the box”. Engraçadíssima, inteligente e cheia de auto-estima, me lembrou muito a tia Milena, com suas frases rápidas, entremeadas pos palavrão, estilo catarse pura. Viajar ao Nordeste é para mim um encontro também com minha história, pois além de ser filho de nordestino quando criança convivi muito com a tia Milena, recifense porreta com a qual aprendi muito sobre foco em resultado, flexibilidade, auto-valorização, enfim, aceitação de identidade. Depois do treinamento saímos para celebrar os aprendizados no Reviver, área de entretenimento da cidade no Centro Antigo. Aqui você encontra as rodas com tambor de crioula, umas mulheres altivas que ficam rodando saia para um lado e para o outro ao som de tambor, e vão se revezando no meio. Bem Lapa! Tem também a lenda do bumba meu boi, segundo a qual uma moça com desejo quer por que quer comer língua de um boi, e alguém la vai e corta a língua do boi, que passa a fazer parte da família. Bem legal a cultura da capoeira Angola, mais musicada e lenta do que o jogo de capoeira tradicional.

Uma vinda a São Luis pede também uma ida aos Lençóis Maranhenses, que visto de cima parece um grande lençol branco de areia pintado com azul e verde das águas formadas pelas chuvas e o Rio Preguiça. Rola uma função de 4h num microônibus apertado até chegar lá, mas é só vc virar criança de novo, se jogar do alto de uma duna e cair naquelas águas para você lembrar que a Vida ainda é bela. Viajar sozinho é algo engraçado porque ficamos suscetíveis, comunicativos, e do nada estamos cercados de BFF – Best friends forever. Encontrei umas cinco pessoas fantásticas, coincidentemente todos professores em diversas áreas, e era muito bom ora rolar dunas, beber cerveja e debater sobre o futuro da Educação do Brasil, tudo junto e misturado, pois como falei, não gosto de dicotomia.

Bem, agora viajo revigorado para São Paulo, sabendo que todas estas experiências fazem parte de mim, enriquecem minha comunicação, fortalecem minha lógica, enaltecem minha visão de equilíbrio, e explicam esta pessoa maravilhosa que vos fala.

Bjs, André Dametto

Sobre André Luiz Dametto

Apaixonado por aprender e criar. Às vezes professor e consultor, outras artista ou flâneur, mas livre, sempre..
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2 respostas para Equilíbrio e identidade, pintados no meu azulejo

  1. Klicia disse:

    Encantada que fiquei com seu blog, não podia deixar de comentar. São Luis-Lençóis, de fato, foi um momento ímpar. Vc descreveu de maneira completa e precisa o momento vivido. Eu que até planejei fazer o passeio, sem pretensão, só para conhecer mesmo, me surpreendi com o que aconteceu. Tudo acontecendo de forma pura, sem hipocresia ou faxada. Descer rolando na duna, feito criança, rsrsrsrsrs, foi mt hilário!!! Se não bastasse a beleza natural do lugar, ainda sair com a sensação de BFF… Muito bom! E olha que foi só um dia. Vc, sem dúvida, se inclui entre uma daquelas pessoas fantásticas. Sua luz é mt intensa e positiva! Sucesso sempre! Bjs, Klicia .

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