E o direito de ir e vir?

               

A base de um sistema democrático eh a possibilidade de todo cidadão poder buscar o alcance dos seus resultados a partir de um mesmo ponto de partida. Com base nesse pressuposto, todo cidadão deveria ter acesso a educação, saúde, transporte e segurança no mesmo nível, de forma que a busca competitiva pelo êxito pessoal e profissional fosse mais igualitaria. Mas você acredita em coelhinho da páscoa? Nem eu no sistema democrático. Na teoria tudo eh muito bonito, mas na pratica o que vemos são os excluídos cada vez mais excluídos, e aqueles que já possuem boas condições de Vida sempre saindo na frente. Aqui nos EUA estou sentindo na pele o que eh ser vilipendiado do direito de ir e vir. Num pais teoricamente democrático, o cidadão que não sabe dirigir e tenha seu próprio carro, eh exposto a um sistema de transporte publico de-pri-men-te. As distancias por aqui são homéricas como eu sempre falo, mas para piorar, se você não tem um carro (ou alugou um, no meu caso de viajante), eh exposto simplesmente ao descaso de ônibus extremamente demorados, sem regularidade. Para piorar, o atendimento dos motoristas eh geralmente mal educado, ate porque eles sabem que quem precisa daquele serviço eh o excluído ao quadrado, já que ter um carro nos EUA custa bem menos que no Brasil. Bem, e se eu não quiser comprar um carro? E se eu não sei dirigir? E se eu sou um turista? E se eu bebi e não quero dirigir? Ok, pegue um taxi! Engano seu, bobinho! Taxi por aqui também eh um serviço abusivo. Alem de raros, e por isso caríssimos, na maioria das vezes são gerenciados por um cartel de imigrantes que fazem o que bem entendem com os passageiros, criando rotas mirabolantes, falando línguas que eu não entendo, enfim, totalmente equivocado! A questão logística sempre eh o maior estresse em uma viagem como a que estou fazendo. Fazer dez cidades em dois meses eh coisa para guerreiro, mas com todos esses complicadores dos Estados Unidos em alguns momentos fico bastante estressado. Por causa disto aconteceu um fato que so comprova o quanto não estamos sos na Vida, e que realmente não estou viajando sozinho. Sempre acreditei no Divino, mas o fato que vou relatar so comprova que existe uma inteligência superior, chamem vocês como quiserem: Deus, Maomé, Buda, como for. Eu prefiro chamar de Vida, essa entidade superior que explica o transcendental. Vamos ao fato: numa dessas correrias de subidas e descidas esbaforidas de ônibus, eu simplesmente deixei sobre o banco de um ônibus publico de Fort Lauderdale o meu porta-documentos, contendo nada mais nada menos do que: meu passaporte, meu visto, minha liberação para sair dos EUA, três cartões de credito, dinheiro cash e cartões de visita. Ou seja, num pais capitalista como este, eu simplesmente passei a ficar nu a partir daquele momento. E desesperado quando tomei conta da situação, já dentro de outro ônibus. A primeira medida que tomei foi saltar imediatamente do mesmo, a fim de evitar aumentar ainda mais minha distancia do ônibus original onde tinha deixado a carteira, isso ha menos de 5 minutos. Entretanto, no meio do nada, sem dinheiro, identidade e cartões telefônicos, eu estava literalmente perdido. Bateu um desespero daqueles: suei frio, chorei, gritei de raiva, mas depois da catarse respirei fundo e pensei: vamos la, o que uma pessoa sensata faria agora? Lembrei que se tratava da linha 40 e meu objetivo a partir de então era descobrir onde era o ponto final desta linha. Um ônibus 36 passou ao meu lado e perguntei onde era este ponto final, ao que ele me indicou que fosse ao outro lado da rua, onde passava o ônibus 40. Numa daquelas chamas divinas da Vida, vem em minha direção um ônibus 40, e nada mais nada menos do que o mesmo motorista dirigia o mesmo, e o melhor: meu porta-documentos estava no mesmo lugar, protegido por uma senhorinha que ao meu ver so me dirigiu as seguintes palavras: venha ca! Bem, não preciso falar mais nada! Então gente, muitas emoções mesmo, para desestressar aproveitei estes três dias em Fort Lauderdale pra descansar, nada de museus, restaurantes, hotéis, meu roteiro básico foi praia-praia-praia, que por sinal são muito bonitas. Água clarinha, praia limpa, não se pode beber bebida alcoólica, mas se vc embrulhar pode… enfim. Naquela linha comparações, Fort Lauderdale eh uma coisa Recreio, mantem a aura Barra da Tijuca, mas bem praiana, mais relaxada, carros conversíveis, muuuuita disparidade: na costa um luxo como nunca vi antes, tudo muito bonito, estético, sorrisos, enfim, plástico! Se vc andar 15 minutos pra dentro de Fort Lauderdale vai ver lugares mais feios, onde moram os excluídos que não tem carro, provavelmente. Geralmente são emburrados, tanta a insatisfação com este lugar, algo como o que eu relatei acima. Bem, minha primeira providencia vai ser mandar um email pro prefeito dessa bodega relatando minha insatisfação como mochileiro. Se vou ser escutado, ou ate mesmo entendido, não sei. Mas democracia eh isso, vamos ver se eles vão saber escutar. Abs e q venha Miami, e aquela coisa tutti frutti que South Beach me passa. Depois conto pra vcs o sabor de verdade. Andre Dametto

Sobre André Luiz Dametto

Apaixonado por aprender e criar. Às vezes professor e consultor, outras artista ou flâneur, mas livre, sempre..
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2 respostas para E o direito de ir e vir?

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